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Entrevistas diárias com pessoas de todas as áreas. Artistas, cientistas, professores, economistas, analistas ou personalidades políticas que vivem na França ou estão de passagem por aqui, são convidadas para falar sobre seus projetos e realizações. A...

Location:

Paris, France

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Description:

Entrevistas diárias com pessoas de todas as áreas. Artistas, cientistas, professores, economistas, analistas ou personalidades políticas que vivem na França ou estão de passagem por aqui, são convidadas para falar sobre seus projetos e realizações. A conversa é filmada e o vídeo pode ser visto no nosso site.

Language:

Portuguese


Episodes
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Após sucesso em 2024, segundo volume do livro 'Caixinhas de Música' trará entrevistas com Fernanda Takai, Tom Zé, Alceu Valença e Wanderléa

5/26/2026
O livro “Caixinhas de Música – Conversas sobre Música Brasileira Tempo e Cidades”, que reúne entrevistas com grandes artistas brasileiros, fez um grande sucesso no Brasil em 2024. A obra da editora Autonomia Literária, organizada por Fabio Maleronka e Renata Rocha, ganhará um segundo volume, com previsão de lançamento em 2027. “Os lugares onde a música acontece”: essa foi a ideia que guiou o projeto que faz recortes da trajetória de grandes artistas de diferentes gerações, estilos musicais e todas as regiões do Brasil. Fabio Maleronka e Renata Rocha se concentraram nos locais que muitas vezes “parecem detalhes na trajetória”, mas dizem muito sobre a essência de ícones da cultura brasileira. “O Mato Grosso de Ney, a esquina do Clube da Esquina, a Governador Valadares da Wanderléa, a Irará de Tom Zé”, lista Fabio. Como o próprio nome do projeto diz, “Caixinhas de Música” traz conversas com dezenas de artistas brasileiros sobre suas trajetórias, em diferentes espaços e contextos, onde vida e carreira se misturam. Desta forma, a conversa de Alice Caymmi se encontra com a de Michael Sullivan; a de Moraes Moreira, com Armandinho e Spok. “Essas entrevistas vão se cruzando por afinidade, como se elas fossem fazendo parcerias inusitadas”, diz Fabio. No primeiro volume do livro, os organizadores explicam que as entrevistas, gravadas entre 2020 e 2024 não são diálogos ensaiados ou previamente estabelecidos, o que abre a possibilidade a revelações e histórias inesperadas. “O Ney conta que o fato de ele usar no sobrenome Mato Grosso como nome artístico – e diferente do estado, ele escolhe usar tudo junto, Matogrosso – isso faz com que ele possa ser algo muito questionável na década de 70. Ninguém queria ser latino, diferente de hoje, que todo mundo quer”, observa. “Mas o Matogrosso do Ney permite que ele grave frevo, que ele grave baião, músicas de todos os gêneros, porque esse ‘Matogrosso’ dá essa proteção a ele”, reitera. Fabio também relembra a gravação da entrevista com Hermeto Pascoal, realizada em 2024, alguns meses antes de sua morte. “Na preparação, eu disse: ‘não vou falar que o Hermeto Pascoal é um gênio, para ser a milésima pessoa fala isso’”, brinca. “Então essa é uma entrevista muito conduzida sobre pintura, comida, como ele pinta as próprias capas dos discos, porque, no caso do Hermeto, a gente não está falando de um artista que a música é uma linguagem artística, mas uma dimensão da vida”, diz. Volume 2 Se no primeiro volume de “Caixinhas de Música” histórias contadas pelos artistas deram o que falar – como a jaguatirica que Rita Lee tinha como animal de estimação – a sequência do projeto promete. Na lista de estrelas entrevistadas, há Fernanda Takai, Tom Zé, Alceu Valença e Wanderléa, que contou a Fabio episódios do início de sua carreira que o surpreenderam. “Wanderléa inventa toda a forma de comportamento no Brasil, de usar bota, adereços de cabelo, de uma forma de dançar”, destaca. “Praticamente todas as artistas, inclusive Gal [Costa], Nara [Leão], iam para o show da Wanderléa para ver uma como era um show da Jovem Guarda. Ninguém podia declarar publicamente isso, mas Wanderléa era uma inspiração para todas as cantoras da época”, afirma. Outra história surpreendente que trará o segundo volume do projeto “Caixinhas de Música” diz respeito ao encontro entre o cantor e guitarrista da banda Talking Heads e o músico baiano Tom Zé. “David Byrne entra numa loja, vê um disco com o nome ‘Estudando o samba’ e se pergunta quem é aquele cara. E o Tom Zé sai praticamente de um exílio em território nacional para para estourar nos Estados Unidos de novo depois de tanto tempo graças a essa descoberta”, destaca. Várias facetas de um mesmo artista Para Fabio, contar essas e outras histórias tão inusitadas e surpreendentes é também uma forma de revelar os diversos personagens dentro de um artista. “Por exemplo, o filme ‘Meu Nome é Gal’, de Dandara Ferreira, retrata a jovem Gal. Mas quantas artistas existiram naquela pessoa?...

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Coprodução brasileira 'Elefantes na Névoa' vence Prêmio do Júri da mostra Un Certain Regard de Cannes

5/22/2026
O filme, dirigido pelo nepalês Abinash Bikram Shah, foi ovacionado na estreia no Festival de Cannes na quarta-feira (20) e recebeu nesta sexta-feira o Prêmio do Júri da mostra Un Certain Regard (Um Certo Olhar). A coprodução brasileira também recebeu um prêmio especial de criação de som, que foi totalmente realizado no Brasil. “Um orgulho imenso participar desse primeiro longa nepalês selecionado no Festival de Cannes”, reagiu a produtora brasileira Tatiana Leite logo após a premiação. Adriana Brandão, enviada especial da RFI a Cannes A mostra Un Certain Regard, da seleção oficial de Cannes, celebra um cinema jovem, de autor e de descobertas. A seleção de 2026 apresentou 19 longas-metragens, incluindo 6 filmes de estreia que também concorrem à Caméra d’Or. Presidido pela atriz francesa Leïla Bekhti, o júri reompensou com o prêmio Un Certain Regard “Everytime”, da austríaca Sandra Wollner. “Elefantes na Névoa”, de Abinash Bikram Shah, ficou com o Prêmio do Júri. “Um filme de uma beleza incrível, com uma narrativa que recusa etiquetas e explora a fronteira entre o realismo e o fantástico”, justificou o júri na cerimônia de premiação na noite desta sexta-feira. Primeiro longa nepalês em Cannes O primeiro longa-metragem do cineasta nepalês se passa em um vilarejo no Nepal, nos arredores de uma floresta habitada por elefantes selvagens. A líder da comunidade Kinnar local sonha em fugir com o homem que ama. Mas o desaparecimento de uma de suas filhas impõe a escolha entre o desejo de liberdade e suas responsabilidades com seu povo historicamente marginalizado. Essa é a primeira vez na história que um filme nepalês é selecionado em Cannes. O filme é uma coprodução do Nepal, Alemanha, França e Noruega. A participação brasileira é fruto de uma parceria inédita entre Tatiana Leite, da Bubbles Project, e Leonardo Mecchi, da Enquadramento Produções. Tatiana Leite estava presente na cerimônia de premiação e não escondeu sua emoção. “Esse é um filme muito importante, muito urgente e maravilhoso cinematograficamente. Um orgulho imenso participar desse primeiro longa nepalês selecionado no Festival de Cannes”, afirmou. O produtor Leonardo Mecchi em entrevista à RFI em Cannes falou da força de "Eleffantes na Névoa". Ele é um filme de uma sensibilidade incrível e realizado de uma maneira impecável, o que é muito impressionante para um primeiro de estreia do Abinash. Ele tem essa força de trazer uma história extremamente fincada nas raízes e na cultura do Nepal, com um olhar para o ser humano, para as relações pessoais, para a complexidade da vida em locais como esse. E isso ressoa em qualquer lugar", salienta. Melhor som Foi o segundo prêmio do dia. Pela manhã, o longa foi premiado pela melhor criação de som, cuja responsabilidade coube ao Brasil nessa coprodução. “Durante a filmagem, nós enviamos o Pedro Sá, que é um técnico de som brasileiro, para o Nepal. E toda a finalização de som, edição e mixagem foram feitas no Brasil. O Abinash foi para São Paulo e ficou lá três semanas acompanhando a finalização de som. Então, a parte criativa brasileira nessa coprodução foi justamente através do som”, ressaltou o produtor Leonardo Mecchi em entrevista à RFI em Cannes. “A gente já tinha ficado muito feliz com esse prêmio de melhor som, mas o Prêmio do Júri é enorme. Um orgulho imenso ser uma coprodução brasileira, ter um pouquinho de Brasil e ter descoberto este país tão especial que é o Nepal”, reiterou Tatiana Leite. O prêmio consolida a carreira do diretor nepalês. Abinash teve seu curta-metragem “Lori” premiado com Menção Especial na competição de curtas de Cannes em 2022 e também assinou o roteiro do longa “Shambhala”, exibido na competição da Berlinale em 2024. Distribuído no Brasil pela Imovision, a estreia mundial do filme em Cannes posiciona “Elefantes na Névoa” como um dos títulos mais aguardados deste ano, reforçando a presença brasileira no circuito internacional. Participação minoritária do Brasil em coproduções Antes do...

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'Sem o Brasil, Paper Tiger não estaria no Festival de Cannes', diz o produtor Rodrigo Teixeira

5/20/2026
O produtor brasileiro Rodrigo Teixeira marca presença constante no Festival de Cannes. Este ano, a produtora dele, a RT Features, produziu 2 filmes selecionados, “Paper Tiger”, do americano James Gray, na disputa pela Palma de Ouro, e “La Perra”, da chilena Domingas Sotomayor, com Selton Mello no elenco, que integra a mostra paralela Quinzena dos Cineastas. Em entrevista à RFI em Cannes, o produtor defendeu o papel do Brasil na participação de “Paper Tiger” em Cannes. Adriana Brandão, enviada especial da RFI a Cannes A presença brasileira em Cannes nesta 79ª edição do festival é discreta. O país está representado na seleção principalmente com quatro coproduções, apresentados em várias mostras. Apenas um único filme autoral brasileiro, o curta Laser-Gato, de Lucas Acher, foi selecionado na mostra La Cinef. Há cinco anos, Rodrigo Teixeira também era o único brasileiro na competição oficial pela Palma de Ouro, como produtor de “Armageddon Time”, também dirigido pelo americano James Gray. Para o brasileiro, produtor de grandes sucessos como “Ainda Estou Aqui”, de Walter Salles, o único paralelo entre os dois momentos “é o trabalho”. Teixeira, que é um dos produtores latino-americanos mais influentes do momento, participa do Festival de Cannes há 15 anos defendendo o cinema independente e autoral. Ele defende que, apesar de discreta, a participação do Brasil este ano é importante pela relevância dos filmes selecionados e garante, “sem o Brasil, 'Paper Tiger', de James Gray, não teria sido rodado e não estaria no Festival de Cannes”. RFI: Qual o paralelo você faz entre esta edição e a de cinco anos atrás, quando você também era o único brasileiro presente na competição oficial pela Palma de Ouro, como produtor de "Armageddon Time", do James Gray? Rodrigo Teixeira: Eu acho que o único paralelo é o trabalho. O cinema independente hoje depende de uma carreira de festivais. Então, o que a gente tem que fazer é trabalhar para que os nossos filmes possam estar presentes nesses festivais, possam participar desses festivais. Saber onde você vai colocar esses filmes é muito importante. RFI: E qual é a sua relação com o Festival de Cannes? RT: Eu tenho 15 anos de relação com esse festival. O primeiro filme que eu fiz que entrou nesse festival foi "O Abismo Prateado", do Karim Aïnouz, em 2011, na Quinzena dos Cineastas. Desde então, 12 filmes meus circularam por esse festival. É uma pena que o cinema brasileiro tenha uma presença discreta este ano, haja vista que no último ano a gente teve “O Agente Secreto”, que foi um estouro aqui no festival. Mas eu não vejo uma presença tão discreta assim, porque acho que há dois produtores importantes com filmes aqui que lideram esses processos. Tem a minha empresa, a RT Features, em parceria com outras pessoas, com “Paper Tiger”, e a Tatiana Leite com o filme “Elefantes na Névoa”, na mostra Un Certain Regard. Você tem dois profissionais que constantemente estão frequentando o Festival de Cannes. Por mais que seja discreta, ela é importante, porque ambos os filmes têm relevância no Festival de Cannes. Se não tivesse o Brasil dentro de "Paper Tiger", eu posso te garantir, o filme não seria realizado e não estaria no Festival de Cannes. Isso é uma prova de que o Brasil está, sim, presente. Qualquer coisa que "Paper Tiger" alcançar nesse festival, o Brasil tem uma responsabilidade muito grande. RFI: Você também está aqui representando o cinema autoral e independente americano, em um ano de ausência das grandes produções dos estúdios de Hollywood. É uma dupla responsabilidade? RT: O cinema de grandes estúdios americanos vinha frequentando o Festival de Cannes para apresentações especiais. Ele não está nas competições nem nas mostras paralelas. São premières. Eu acho que muitos deles têm um pouco de medo de vir para serem detonados pela crítica e ter uma relevância mercadológica menor no momento seguinte. E agora, falando da competição, você tem dois filmes com uma relevância muito importante. Isso...

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Arquitetas mineiras levam instalação imersiva à Nuit Blanche e ocupam túnel às margens do Sena

5/19/2026
Três arquitetas mineiras radicadas em Paris vão dar um toque brasileiro ao coração da capital francesa. O projeto “Multitudes – Uma luz multiplicada como nossas existências”, concebido por Vanessa Gambardella, Helena Caixeta e Louise Silva, foi selecionado para a edição de 2026 da Nuit Blanche, que acontece na noite de 6 de junho. A instalação será apresentada no túnel das Tulherias, às margens do rio Sena, e propõe uma experiência sensorial que mistura luz, som e reflexões sobre identidade e diversidade. Criada em 2002, a Nuit Blanche é um dos principais eventos culturais de Paris: durante uma madrugada, espaços públicos, museus e ruas recebem intervenções artísticas gratuitas, convidando o público a percorrer a cidade de forma diferente, em contato direto com a criação contemporânea. No caso de “Multitudes”, a escolha do local é central para a proposta. O túnel das Tulherias, hoje reservado a pedestres, ciclistas e usuários de patinete, transformou-se em uma galeria de arte urbana desde 2022, em um projeto conduzido por Nicolas Laugero Lasserre, fundador da associação cultural Artistik Rezo e diretor da escola de arte ICART, que também apoiou a iniciativa das três artistas brasileiras. O espaço, marcado por uma acústica particular, acabou influenciando diretamente a criação. “As pessoas parecem se liberar lá dentro”, observa Vanessa Gambardella. A ideia do trio foi justamente amplificar essa sensação, criando “uma imersão de luz e som” que dialogue com o ambiente e com quem o atravessa. A trilha sonora, ainda mantida sob sigilo, terá “toques de brasilidade” que, segundo a arquiteta, devem surpreender o público. A concepção partiu da observação do próprio uso do túnel: gente que canta ao passar de bicicleta, visitantes que desaceleram, vozes que ecoam. “O público foi a nossa inspiração desde o começo”, resume. Encontro em Paris, raízes em Minas As três artistas se conheceram na França, mas compartilham a formação em arquitetura e urbanismo em Minas Gerais. Foi a afinidade entre prática profissional e expressão artística que aproximou o trio. “A gente descobriu que dividia esse papel entre arquitetas e artistas, assim como eu”, conta Vanessa, que convidou as colegas para integrar o coletivo Pogo, criado por ela em Paris. A oportunidade de participar da Nuit Blanche surgiu a partir de um edital aberto. Ao ver a chamada, Vanessa pensou imediatamente nas duas conterrâneas. “É muito legal ter ganhado com duas artistas brasileiras que me acompanham. A gente monta projetos com muitos artistas, e esse acabou sendo de três mineiras”, afirma. Espaço público e experiência coletiva Embora parta de uma intervenção artística, a instalação “Multitudes – Uma luz multiplicada como nossas existências” dialoga diretamente com questões urbanas. O túnel das Tulherias, antes destinado exclusivamente aos carros, foi incorporado ao circuito de mobilidade ativa da cidade – um símbolo, segundo Vanessa, do processo de transformação urbana em Paris. “É um espaço conquistado para o pedestre e a bicicleta. Para a gente, como arquitetas e urbanistas, isso já é um símbolo de liberação”, explica. A instalação nasce dessa leitura, combinando arte, arquitetura e uma dimensão sociológica voltada ao uso do espaço público. “A gente pensa sempre na sensação que aquilo vai despertar nas pessoas e em quem são os usuários daquele lugar.” A proximidade com outras obras reforça essa ideia de percurso. O trabalho das brasileiras ficará ao lado de uma intervenção do artista francês JR, inaugurada na mesma noite no Pont Neuf. A ponte mais antiga de Paris será transformada em uma espécie de “caverna” monumental, com estrutura inflável e efeito de trompe-l’œil que simula uma paisagem rochosa. A instalação de JR também convida o público a uma travessia imersiva, com criação sonora de Thomas Bangalter, ex-integrante do Daft Punk, explorando essa atmosfera entre fascínio e estranhamento que o próprio JR associa ao imaginário das cavernas. Vanessa espera que o...

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Lucas Acher é o único diretor brasileiro na seleção oficial do 79° Festival de Cannes

5/18/2026
"Laser-Gato", o curta do jovem diretor paulista, integra a mostra La Cinef, dedicada a filmes de escola de cinema. Lucas Acher e o produtor João Pereira Webber estão em Cannes e concederam à RFI a primeira entrevista deles no festival. Adriana Brandão, enviada especial da RFI a Cannes "Laser-Gato" foi selecionado entre mais de 2.700 candidatos do mundo inteiro. O filme de Lucas Acher concorre na La Cinef, que visa apoiar novos cineastas, com 18 curtas de vários países. “A seleção do curta-metragem 'Laser-Gato' para o La Cinef de Cannes esse ano foi uma surpresa. Me traz felicidade de estar representando o Brasil. Ser o único diretor brasileiro em competição no festival traz uma maior responsabilidade”, afirma. Lembrando a boa fase do cinema nacional potencializada desde as conquistas de "O Agente Secreto", de Kleber Mendonça Filho, no ano passado, e "Ainda Estou Aqui", de Walter Salles, na edição anterior, Lucas Acher lamenta não ter outros filmes autorais brasileiros na seleção. “Tem o lado ruim de ser a única seleção brasileira esse ano no festival, diante da quantidade de filmes muito bons que a gente produz por ano. Então, existe uma pressão”, diz. O produtor João Pereira Webber acredita que "Laser-Gato" integra essa “grande onda do cinema nacional” e agradece “a todos os filmes que vieram antes”. “Eu sonho que a gente possa continuar essa grande onda e expandir o que o Brasil representa no mundo do cinema”, espera. São Paulo como personagem "Laser-Gato" é o projeto de doutorado em Cinema de Lucas Acher na NYU. Rodado em São Paulo, o filme acompanha a travessia inquietante de um adolescente pela cidade, em uma única noite, tentando salvar um gato. A narrativa é de suspense, de uma corrida contra o tempo, com toques de elementos mágicos, fantásticos, mas sempre com algum senso de humor. O personagem avança em uma situação de emergência que piora a cada decisão. Lucas Acher quis mostrar São Paulo de uma maneira diferente, fora dos clichês. “Me dá muita animação poder mostrar um recorte de São Paulo que eu acho que não é tão mostrado. São Paulo vista sob um viés que conversa mais com o cinema de gênero”, salienta. No trama, “a cidade, silenciosamente, conspira contra o protagonista. É um personagem, mas também é o grande conflito do filme para mim. Como esse protagonista não consegue navegar pela cidade e como a cidade não o vê? A cidade é indiferente a ele”, explica o cineasta que nasceu e cresceu em São Paulo. Baixo orçamento O curta é a segunda colaboração entre Lucas Acher e João Pereira Webber, que também produziu o trabalho de conclusão do mestrado do diretor paulista na NYU. "Laser-Gato", produzido pela Bruto Films e pela Balcão Filmes, foi rodado com baixo orçamento e financiado principalmente com capital privado. Mas a expectativa com essa participação em Cannes é ganhar visibilidade e poder costurar coproduções para transformar "Laser-Gato" em um longa-metragem. “Com isso, a gente vai começar o processo de editais”, antecipa João Pereira Webber, explicando que “apesar de não ter produzido o curta com dinheiro público, a gente está aqui por causa de dinheiro público. O Brasil tem uma coisa muito forte de apoiar artistas nos momentos grandes de divulgação internacional”, como em Cannes. A expectativa de Lucas Acher com a recepção do curta no festival e uma possível vitória na mostra La Cinef é grande. “A ideia é seguir em frente e, quem sabe, transformar esse curta em um longa-metragem”, espera o cineasta que já é apontado como uma das promessas do cinema brasileiro. "Laser-Gato", de Lucas Acher, será exibido nesta terça-feira (19) na mostra La Cinef, seleção oficial do Festival de Cannes dedicada a apoiar novos talentos.

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Carla Juaçaba leva a Paris pensamento arquitetônico que une clima, técnica e política do espaço

5/15/2026
Convidada das Palestras Chaillot, na Cité de l’Architecture, em Paris, a arquiteta brasileira Carla Juaçaba apresenta um percurso que articula duas décadas de produção entre o Rio de Janeiro e a Europa. Professora na Accademia di Mendrisio e vencedora, em 2026, do concurso para o Museu de Arte Kurpark Bad Ragaz, na Suíça, ela chega à capital francesa com uma obra consolidada por exposições, instalações e projetos, sempre guiada pela tensão entre natureza, técnica e história. Desde 2000 à frente de um escritório independente no Rio de Janeiro, Carla Juaçaba construiu uma trajetória que oscila entre comissões privadas e programas culturais, com presença frequente em instituições internacionais. Premiada com o ArcVision Women and Architecture Prize, em 2013, e o Emerging Architecture Award, da Architectural Review, em 2018, ela participou da Bienal de Veneza no mesmo ano, quando também construiu uma capela para o Vaticano — hoje integrada ao patrimônio italiano e ao acervo do Centre Pompidou, em Paris. Professora da Accademia di Architettura de Mendrisio desde 2019, onde se tornou titular em 2023, ela transita com naturalidade entre prática e reflexão. Em exposições e instalações — de Lisboa a Genebra, de Nova York a São Paulo —, sua arquitetura se aproxima das artes visuais, insistindo na ideia de que espaço não se separa de contexto. “Acho que estamos num momento em que o mundo ficou muito pequeno, e passamos a falar de uma arquitetura de reflexos internacionais”, afirma. Ainda assim, resiste a paralelos rápidos. “Não consigo comparar muito a arquitetura francesa com a brasileira, porque a questão climática, quando estou fazendo trabalhos no Brasil e na Suíça, muda completamente a perspectiva e o modo de fazer”. A diferença não é apenas técnica. “A questão climática transforma o modo de fazer.” No Brasil, segundo Juaçaba, isso se traduz em margem de liberdade. “A arquitetura brasileira tem uma liberdade dada pelo próprio clima. Não preciso enfrentar todas as camadas que a França precisa para se proteger do frio”. É uma diferença que se materializa no projeto. “No museu que está sendo feito no Brasil, o chão é de terra. Eu nunca poderia fazer isso na Europa.” Para a arquiteta, o clima, mais do que condicionante, torna-se linguagem. “É um problema global, mas sempre com questões locais, que exigem reação e reflexão.” Paisagem como estrutura, não ornamento Nos projetos recentes, essa atenção ao contexto assume forma quase programática. “Um museu na Suíça, em uma montanha com neve, e outro no Brasil respondem diretamente a esses contextos.” Em ambos, a paisagem não aparece como fundo, mas como estrutura. “Vejo a arquitetura como uma inserção em que natureza e objeto se misturam, um dentro do outro.” A consequência é a recusa do paisagismo como acabamento. “O projeto paisagístico precisa nascer junto com o projeto de arquitetura. Não é algo secundário, que vem depois.” A crítica é direta. “O paisagismo não deveria aparecer como um elemento decorativo, aplicado depois para tornar o projeto mais bonito.” Na prática, isso implica um olhar atento ao território. “[O paisagismo] precisa surgir junto, ligado às questões ambientais, atento à vegetação local e capaz de fazer coexistir essas duas dimensões.” Uma posição que atravessa desde instalações efêmeras, como o Pavilhão Humanidade, até trabalhos recentes apresentados em circuitos internacionais. Em Paris, Juaçaba opta por destacar projetos brasileiros, entre eles o Flor de Café, em Minas Gerais. “Vou falar principalmente de projetos do Brasil. Um deles é o Flor de Café, pensado para pequenos agricultores.” Ali, arquitetura, economia e história se entrelaçam. “É um projeto de longo prazo, ainda em busca de financiamento. Foi iniciado por uma mulher, que reuniu pequenos agricultores, valorizou o café que produziam e que antes era vendido por quase nada.” O desdobramento aponta para um programa maior. “Hoje, eles vendem o próprio produto.” O projeto inclui ainda um centro...

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Diácono brasileiro mostra como o luto pode ser pedagógico em livro nascido na pandemia

5/13/2026
O luto e as pequenas permanências que resistem ao tempo são o tema do livro do diácono permanente da Diocese de Ilhéus e escritor Rodrigo Dias de Souza, O Sabor das Coisas que Ficam (Nocego), lançado no ano passado e já traduzido para duas línguas, espanhol e italiano. A obra apresenta uma narrativa marcada pela espiritualidade e pelo afeto. “Durante a Covid, assim como no Brasil e em todo o mundo, enfrentamos a dificuldade, ou melhor, a impossibilidade, de realizar os rituais de despedida das pessoas que amamos", lembra o diácono, para explicar a origem de seu quinto livro. "Diante daquela circunstância tão dolorosa para o povo brasileiro, sobretudo para aqueles que perderam um número imenso de parentes e amigos, fiquei pensando em uma geração que não teve a oportunidade de vivenciar o luto”, resume o autor. Segundo ele, o projeto parte dessa perspectiva. “Não apenas do luto pela pessoa que perdemos, mas também dos tantos lutos que experimentamos ao longo da vida: a perda de uma amizade, a perda daquilo que amamos”. “Assim, a pandemia surge como pano de fundo, mas sob a perspectiva de que o luto é pedagógico”, afirma. A obra percorre paisagens simbólicas e existenciais – da romaria de Bom Jesus da Lapa, no coração do sertão baiano, às ruas de Roma, aos rios da Itália e também a Belém – para narrar histórias de pessoas comuns. Este é o primeiro romance de Dias de Souza. O anterior, Em tempos de e-mail: cartas para Irene, aborda a exigência de rapidez nas sociedades contemporâneas, influenciadas pelas tecnologias – uma ideia que também fundamenta sua obra mais recente. “Todo escritor não escreve a partir do abstrato. A gente escreve daquilo que a gente vive. Meu cotidiano é profundamente marcado pela presença das pequenas coisas, das miúdas coisas da vida. E elas, de fato, me marcam. Esse é o meu traço literário, o meu jeito de ser”, afirma. "A proposta do livro Em tempos de e-mail: Cartas para Irene, que foi um divisor de águas na minha vida, é perceber outras urgências: a urgência de parar numa praça, de observar as pessoas, de contemplar o pôr do sol, algo tão necessário nos tempos em que vivemos, de observar os detalhes da vida, porque ela é feita de pequenos detalhes e eles mudam profundamente o destino de uma pessoa”, acrescenta. Poesia do cotidiano Rodrigo Dias de Souza participou, em 12 de maio, de um encontro sobre poesia lusófona, promovido pela Biblioteca Gulbenkian, na Cidade Universitária de Paris, ao lado dos poetas Alice Machado, António Topa e José Vala. O objetivo do evento foi promover o encontro entre autores de língua portuguesa de diferentes países, e leitores. Para ele, o momento foi "muito importante para encontrar e conhecer pessoas, além de destacar a poesia do cotidiano”. “A poesia que encanta é aquela que nasce da vida concreta, do que é mais simples, como um pequeno quarto, frequentemente presente nas minhas poesias. Fiquei muito feliz de estar aqui, de participar desse evento, de conhecer outras pessoas. Mas, sobretudo, de perceber que a poesia simples do cotidiano ainda toca a alma das pessoas”, conclui.

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'Povo Brasileiro': a travessia sonora de Pierre Aderne inspirada em Darcy Ribeiro

5/13/2026
Entre a França, o Brasil e Portugal, Pierre Aderne construiu uma trajetória musical marcada pelo trânsito e pela escuta. Nascido em Toulouse, criado no Rio de Janeiro e radicado em Lisboa, o músico e produtor apresenta agora “Povo Brasileiro”, novo álbum do coletivo Rua das Pretas, projeto que sintetiza essa experiência entre margens do Atlântico. O grupo lançou o disco esta semana no L’Ermitage, em Paris, e chega ao Brasil para uma apresentação no Festival Remexe Rio, no dia 24 de maio. O disco reúne músicos do Brasil, de Portugal e de Cabo Verde em uma leitura contemporânea desse território comum: plural, miscigenado e sem hierarquias impostas. Gravado na Casa Darcy Ribeiro, projetada por Oscar Niemeyer em Maricá (RJ), o álbum propõe um encontro orgânico entre linguagens musicais. Samba carioca, fado português, morna cabo‑verdiana, referências à capoeira, aos ijexás e afoxés se cruzam sem a pretensão de uma “fusão” planejada. Segundo Aderne, essa conversa aconteceu de forma natural, como sempre ocorreu na música brasileira. “Assim como ninguém sabe exatamente por que a música brasileira chega à capoeira, a um ponto de candomblé ou a um frevo. Quando a gente é submetido a um campo novo de conhecimento, aquilo vira um sotaque orgânico.” Essa forma de criar nasce da própria história da Rua das Pretas, coletivo fundado há cerca de 15 anos, em Lisboa, a partir de encontros musicais realizados na casa de Aderne. Inspirados nos saraus cariocas da rua Nascimento Silva, onde morou Tom Jobim, esses encontros reuniam músicos de trajetórias diversas e ampliaram o contato do artista com a África que também fala português – ainda que ele rejeite o termo “lusofonia”. “É uma palavra desequilibrada. Prefiro pensar que essas matrizes nos pertencem a todos: portugueses, brasileiros, africanos. Isso me ajudou a entender melhor como se deu a nossa construção musical no Brasil.” Com o tempo, essas reuniões informais se transformaram em um espaço constante de troca e criação, que deu identidade à Rua das Pretas como projeto musical e político, mais interessado na convivência entre histórias do que em categorias formais. Darcy Ribeiro como chão simbólico Embora o conceito do álbum venha sendo tecido há anos, especialmente na parceria com Moacir Luz, com quem Aderne compõe há cerca de cinco anos, a gravação em Maricá trouxe uma dimensão simbólica decisiva. A relação com Darcy Ribeiro também atravessa a vida pessoal do músico: sua mãe trabalhou com o antropólogo na Universidade de Brasília, no projeto que deu origem aos CIEPs. “Gravar na casa do Darcy foi um encontro quase espiritual. A oportunidade de montar um estúdio dentro do museu. A gente estava, sem saber, construindo a trilha sonora daquele livro, O Povo Brasileiro, que foi tão estrutural para mim.” O disco conta ainda com arranjos escritos por Kiko Horta, um dos criadores do Cordão do Boitatá, patrimônio imaterial do Rio de Janeiro. Aderne descreve esse encontro como a junção de uma “orquestra humana” – músicos do morro, da cidade e da África – com uma escrita musical que evoca nomes como Tom Jobim, Moacir Luz e outros mestres. “Foi como uma lavagem das caravelas. Como se a gente tivesse chegado a Maricá numa caravela diferente, dessa vez com músicos de três continentes.” Vozes femininas e travessias Entre as vozes femininas do álbum estão a cantora Zulu, da Ilha da Boa Vista, em Cabo Verde; a fadista portuguesa Ana Margarida Prado; e a flautista Letícia Malvares, brasileira radicada em Madri. Para Aderne, o impacto da gravação naquele espaço histórico foi profundo, especialmente para as intérpretes africana e portuguesa. “Cabo Verde é quase uma clave de sol no meio do oceano, entre Lisboa e o Rio. Para a Zulu, estar ali foi muito simbólico. E a Ana Margarida ficou tocada ao lembrar daquela narrativa das lavadeiras portuguesas que, no início do século 20, cantavam fados na Fonte da Saudade, na Lagoa, com saudade da terrinha.” Essas presenças femininas ajudam a ampliar o alcance...

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Livro de Leneide Duarte-Plon sobre general que exportou a tortura ao Cone Sul é publicado na França

5/11/2026
Dez anos depois de sua publicação no Brasil, o livro “A tortura como arma de guerra – da Argélia ao Brasil”, da jornalista e escritora brasileira Leneide Duarte‑Plon, acaba de ganhar edição em francês pela editora L’Harmattan. Lançada em 2016, a obra já havia sido traduzida para o árabe e publicada na Argélia no ano passado. Com base em documentos, entrevistas e investigação histórica, o livro demonstra que a tortura não foi um desvio, mas uma verdadeira doutrina de Estado, aplicada pela França durante a Guerra da Argélia (1954‑62) e posteriormente exportada para as ditaduras da América do Sul. Leneide Duarte‑Plon viveu em Paris durante 24 anos, período em que trabalhou como jornalista e colaborou com diversos jornais e revistas brasileiros. Foi nesse contexto que escreveu, entre outros livros, “Um homem torturado – nos passos de Frei Tito de Alencar”, publicado no Brasil em 2014, em coautoria com Clarisse Meireles, e “A tortura como arma de guerra”, ambos dedicados à análise da tortura como instrumento de repressão estatal. A autora retornou ao Brasil no ano passado. Em “A tortura como arma de guerra”, Leneide Duarte‑Plon reúne, entre outras entrevistas, aquelas realizadas com o general francês Paul Aussaresses, figura central desse sistema repressivo. Então coronel, ele foi chefe da repressão francesa na Argélia e um dos principais teóricos e executores da tortura, das execuções sumárias e dos desaparecimentos forçados. Defensor da ocultação dos corpos após interrogatórios e assassinatos, Aussaresses reconheceu à autora o papel pioneiro da França na institucionalização dessas práticas e confirmou, entre outros pontos, a participação do governo brasileiro no golpe que derrubou o presidente chileno Salvador Allende. Em entrevista à RFI, Leneide fala sobre essa circulação da violência, seus encontros com o general Aussaresses e a atualidade do tema no Brasil de hoje. RFI – No seu livro, você demonstra que a tortura não foi um desvio, mas uma doutrina de Estado, aplicada primeiro na Indochina, depois na Guerra da Argélia, e mais tarde exportada para a América do Sul. Como essa transferência de métodos se deu concretamente? Leneide Duarte-Plon – Foi um pacote completo. Tudo se baseia nos trabalhos do general francês Roger Trinquier, autor de “La Guerre moderne”. Na Indochina, os franceses viram que enfrentavam uma guerra totalmente diferente: não era uma guerra convencional, com homens armados e um exército, mas uma guerra conduzida por guerrilheiros sem uniforme, disseminados na população civil, treinados na teoria da guerra revolucionária de Mao Tsé‑Tung. A partir disso, os franceses teorizaram a guerra contra‑revolucionária, ou guerra antissubversiva, que depois foi aplicada na Argélia. Essa doutrina incluía a tortura, as execuções sumárias de prisioneiros, o desaparecimento de corpos e o interrogatório sob tortura, métodos que foram aperfeiçoados na Argélia e depois exportados. RFI – No Brasil, após o golpe de 1964, essa doutrina foi apropriada em nome da luta anticomunista. Na prática, isso significou treinar as Forças Armadas para combater a própria população civil. Como essa lógica do “inimigo interno” se estruturou? O inimigo deixou de ser um invasor estrangeiro e passou a ser o “subversivo”. Um general que cito no livro define claramente quem era esse inimigo interno: padres progressistas, professores universitários, estudantes, militantes políticos e guerrilheiros urbanos. Mesmo pessoas que não usavam armas, como padres que acolhiam perseguidos políticos ou ajudavam feridos, passaram a ser tratadas como inimigas. Quando entrevistei o general Paul Aussaresses, ele foi direto: o que houve no Brasil foi uma guerra civil, brasileiros combatendo e reprimindo brasileiros. Essa definição era uma novidade para mim, porque eu nunca tinha ouvido ninguém dizer ou escrever que, na realidade, o que houve nas ditaduras do Chile, da Argentina e do Brasil foi, no fundo, uma guerra civil. RFI – Você foi a única jornalista...

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Tatiana Leite volta a Cannes com 'Elefantes na Névoa' e reforça trajetória autoral

5/11/2026
A produtora brasileira Tatiana Leite volta a marcar presença no Festival de Cannes em 2026 com o longa‑metragem “Elefantes na Névoa”, selecionado para a mostra Un Certain Regard (Um Certo Olhar). A escolha do filme confirma a sintonia entre a Bubbles Project, produtora fundada por ela, e uma das seções mais voltadas à descoberta de novas vozes do cinema contemporâneo. No ano passado, a produtora esteve na mesma mostra com “O Riso e a Faca”, coprodução entre Brasil, Portugal, França e Romênia, dirigida pelo cineasta português Pedro Pinho, que saiu de Cannes premiada com o troféu de Melhor Atriz para Cleo Diára. Agora, enquanto o novo filme se prepara para a estreia mundial na Croisette, “O Riso e a Faca” inicia sua trajetória comercial no Brasil, ampliando o diálogo entre os percursos internacionais e o encontro com o público brasileiro. Ao comentar a recorrência da Bubbles Project na Un Certain Regard, Tatiana Leite observa que a afinidade entre seus projetos e a mostra não é fortuita. Para ela, a seção ocupa hoje um espaço singular dentro do festival: “É provavelmente a mostra de Cannes que realmente busca um cinema um pouco além do evidente”, afirma. Em contraste com a competição oficial, frequentemente ocupada por nomes já consagrados, a Un Certain Regard se tornou um território de acolhimento para propostas autorais mais ousadas, mas já amadurecidas do ponto de vista estético. É nesse contexto que se insere “Elefantes na Névoa”, dirigido pelo nepalês Abinash Bikram Shah, em seu primeiro longa‑metragem. Tatiana teve contato com o projeto ainda em fase inicial, ao integrar a comissão de um fundo internacional de apoio ao cinema. O filme se passa em um vilarejo no Nepal, nos arredores de uma floresta habitada por elefantes selvagens, e acompanha Pirati, líder de uma comunidade Kinnar, cuja vida se transforma após o desaparecimento de uma de suas filhas. A partir desse acontecimento, a narrativa se estrutura como uma investigação, atravessada por conflitos íntimos, sociais e pelos vínculos internos de uma comunidade historicamente marginalizada. Coprodução entre Nepal, Alemanha, Brasil, França e Noruega, o filme marca a estreia de Abinash Bikram Shah em longas, após uma trajetória de dois curtas e na escrita de roteiros exibidos em festivais internacionais. “O Riso e a Faca”: chegada ao Brasil Enquanto “Elefantes na Névoa” se prepara para sua première mundial, “O Riso e a Faca” ganha novo fôlego com a estreia nos cinemas brasileiros. O filme acompanha Sérgio, um engenheiro ambiental que viaja a uma grande cidade da África Ocidental para trabalhar, a serviço de uma ONG, na avaliação da construção de uma estrada entre o deserto e a selva. Ali, ele se envolve em uma relação íntima e assimétrica com Diára e Gui, vínculo que, inserido nas dinâmicas da comunidade de expatriados, expõe continuidades do neocolonialismo e das relações de poder no cotidiano contemporâneo. A narrativa é atravessada por imagens da Guiné‑Bissau e do deserto da Mauritânia, captadas pelo fotógrafo brasileiro Ivo Lopes Araújo, cuja câmera confere densidade sensorial e amplitude visual ao percurso dos personagens. Com duração de três horas e meia, o longa chamou atenção desde a estreia por sua ambição formal e narrativa. “Na verdade, é um filme que te arrebata”, observa, destacando a força da experiência proposta ao espectador. Para ela, apesar da extensão, “essas três horas e meia passam totalmente fluidas”, acompanhando a trajetória dos personagens e suas transformações ao longo do percurso. Produzir entre países, culturas e modos de fazer Ao longo da entrevista, Tatiana Leite retoma um tema central da sua trajetória: o trabalho com coproduções internacionais. Presente em projetos que atravessam a América Latina, a Europa, a África e a Ásia, ela define esse processo como uma combinação constante de negociação, escuta e organização. “É tão desafiador quanto genial”, resume, ao falar das exigências legais, culturais e criativas que envolvem cada...

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Brasilidade em alta: entenda o que o neuromarketing revela sobre o apelo cultural do Brasil

5/8/2026
Ferramentas de neuromarketing, cada vez mais utilizadas por empresas ao redor do mundo, ajudam a compreender o que motiva decisões de compra – muitas vezes, antes mesmo que as pessoas se deem conta disso. A análise é da pesquisadora brasileira Marina Travassos, especialista em comportamento e tomada de decisão. Em entrevista à RFI, ela explica por que o Brasil voltou ao centro das atenções e como a chamada brasilidade se transforma em um poderoso motor de desejo. Maria Paula Carvalho, da RFI Baseada em Paris e atuando em projetos na Europa e nas Américas, Marina construiu uma trajetória que passou pelo marketing e pelo cinema até chegar à aplicação de ferramentas de neuromarketing, um campo ainda pouco conhecido fora dos meios especializados. “É uma área um pouco fantasma, que fica por trás das inovações, antes da comunicação, antes mesmo de se criar uma publicidade ou um produto”, explica. O neuromarketing busca compreender como fatores conscientes e inconscientes influenciam decisões, combinando conhecimentos de neurociência, antropologia e metodologias quantitativas de pesquisa. O objetivo, diz a pesquisadora, é ajudar marcas e empresas a ajustarem produtos, mensagens e experiências. “Essa é uma área que procura entender o comportamento das pessoas e o consumo para ajudar empresas a direcionarem melhor suas estratégias.” O trabalho é voltado majoritariamente para o universo corporativo, mas Marina também participa de estudos que buscam ampliar o conhecimento do público em geral sobre o tema. Para ela, entender o processo decisório exige olhar além do indivíduo. “O comportamento é influenciado por muitas coisas: o ambiente onde a pessoa vive, a cultura, a forma como ela aprendeu determinado assunto. É uma área que mistura muita coisa”, afirma. Brasilidade: uma tendência Nesse processo, a observação de padrões é central. Ao conversar com diferentes públicos, certas respostas tendem a se repetir, o que pode indicar tendências emergentes. “Quando você começa a ouvir a mesma resposta várias vezes, percebe que há algo ali que precisa ser entendido”, diz. Um exemplo recente chamou a atenção da pesquisadora: a crescente presença do Brasil no consumo simbólico e cultural. Sem partir inicialmente de um estudo formal, Marina percebeu sinais recorrentes ao viajar pelo país e conversar com amigos estrangeiros. “Passei pelo aeroporto de Guarulhos e fiquei impressionada com a quantidade de souvenirs brasileiros, perfumes de marcas nacionais. Antes, era um espaço dominado por marcas internacionais”, relata. O fenômeno também se manifesta no entretenimento. Para Marina, a presença recente do Brasil em grandes premiações internacionais como o Oscar e a circulação de memes brasileiros no exterior fazem parte de um movimento mais amplo. “Há um deslocamento do eixo tradicional Europa–Estados Unidos para expressões culturais mais periféricas, como o K‑pop ou a latinidade levada ao mundo por artistas como Bad Bunny”, observa. Na análise micro, ligada à neurociência, a pesquisadora aponta um elemento-chave da atratividade brasileira: a combinação entre o familiar e o inesperado. “Tudo que é familiar é fácil para o cérebro, porque não gasta energia. Mas o inesperado chama a atenção, ativa um sistema de alerta”, explica. Para ela, o Brasil reúne essas duas dimensões graças à sua história de misturas culturais. Marina cita a pizza brasileira como exemplo dessa lógica. “A gente pega uma referência de fora e mistura com elementos locais, como a borda recheada de catupiry. Não existe na Itália, mas é a pizza brasileira. Eu chamo isso de inovação à la brasileira.” Como toda tendência, ela acredita que o movimento tem um ciclo. “Toda tendência tem um tempo para acabar. Acho que ainda estamos no pico e espero que dure mais alguns anos”, diz. Do ponto de vista do consumidor, a pesquisadora defende mais atenção ao próprio estado emocional antes de uma compra. “Vale se perguntar: como eu estou agora? Irritado, carente, feliz? Será que essa compra...

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Ex‑atleta brasileira transforma pesquisa esportiva em livro sobre ciclo menstrual e performance

5/7/2026
Sintomas considerados comuns na vida das mulheres, como cólicas, fadiga, alterações de humor e ciclos irregulares, ganharam um novo olhar no livro "Votre cycle menstruel mérite d’être écouté" (Seu ciclo menstrual merece ser ouvido, em português), lançado pela ex-ginasta e pesquisadora brasileira Juliana Antero, especialista em Saúde Pública e Ciências do Esporte. A obra questiona a naturalização do sofrimento feminino durante o ciclo menstrual, inclusive no esporte de alto rendimento, e mostra como a escuta do corpo pode melhorar a saúde e o desempenho das mulheres, tanto no esporte quanto na vida cotidiana. Por meio de suas pesquisas no Instituto Nacional Francês do Esporte, Especialização e Desempenho (Insep), Juliana Antero usa a diversidade das experiências femininas para propor uma abordagem que une ciência e auto-observação. Cada capítulo é estruturado a partir da história de uma mulher e dos sinais emitidos pelo corpo ao longo do ciclo. “Isso permite interpretar e viver cada fase de forma mais leve, contribuindo para a saúde, o bem-estar e o desempenho esportivo”, explica. “Tudo o que eu coloquei no livro é o que eu gostaria de ter tido de conhecimento durante a minha carreira de atleta, mas também na minha vida do dia a dia”, afirma Juliana em entrevista à RFI. Ex-ginasta de alto rendimento, ela conhece de perto um universo esportivo que, por muito tempo, ignorou os sinais do corpo feminino. “É um conhecimento essencial para todas as mulheres saberem interpretar os sinais do ciclo menstrual”, explica. As recomendações propostas pela autora são baseadas em evidências científicas. São ajustes possíveis no estilo de vida, como mudanças no tipo, na intensidade e no momento da atividade física, além de adaptações na alimentação, no sono e na gestão do estresse. “Por exemplo, para aquela dorzinha chata na menstruação, é recomendado fazer exercícios que contribuem para diminuir as dores. Também há ajustes na alimentação para aliviar sintomas como a vontade de comer tudo no final do ciclo, além de dicas para melhorar o sono e gerenciar o estresse, que são obstáculos para um ciclo equilibrado que garanta a ovulação”, detalha. Observação das atletas nos Jogos Paris 2024 À frente do programa Empow'her, no Insep, a pesquisadora acompanha estudos sobre ciclo menstrual e performance e trabalhou diretamente com atletas francesas durante os Jogos Olímpicos e Paralímpicos de Paris 2024 e nos Jogos de Inverno Milão-Cortina 2026. A experiência de campo foi fundamental para a elaboração do livro, afirma. O olhar crítico de Juliana também vem de sua própria trajetória como atleta, quando faltou-lhe informação sobre o ciclo menstrual. A cientista acredita que os dados que possui hoje “teriam feito muita diferença em sua carreira como atleta”: “Quando eu era atleta e não menstruava, o que é relativamente comum no esporte de alto desempenho, a gente achava que era normal. Só que isso tem uma repercussão muito séria na saúde da mulher e no desempenho esportivo. É mais difícil construir músculos quando a gente não está menstruando, por exemplo”, relata. Ela conta que, no seu caso, a produção hormonal insuficiente acabou provocando até uma fratura. Segundo Juliana Antero, o problema poderia ter sido evitado apenas pela observação atenta do ciclo – no seu caso, muito longos ou ausentes. A pesquisadora conta que o tema era tabu em sua época de atleta profissional e ela não tinha percepção científica atual de que o ciclo funciona como um sinal vital da saúde da mulher: “Eu adoraria ter tido esse conhecimento quando era ginasta”. Conhecimento e empoderamento Apesar de avanços recentes, a pesquisadora aponta que a ciência ainda olha pouco para os corpos femininos. “Um estudo de 2022 mostrou que apenas 10% das pesquisas científicas são exclusivamente sobre mulheres, enquanto 70% são focadas apenas em homens. As hipóteses científicas continuam muito baseadas na fisiologia masculina”, descreve. Para Juliana Antero, escutar o ciclo...

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Psicanalista Liz Feré analisa como estereótipos moldam poder, linguagem e silenciamentos no Brasil

5/6/2026
Como nascem os estereótipos que moldam a forma como vemos o outro e a nós mesmos? No Brasil, país marcado por heranças coloniais e profundas desigualdades sociais, esses rótulos estruturam relações de poder e produzem silenciamentos. É a partir desse ponto que a professora de Ciências da Comunicação Liz Feré recorre à psicanálise e à análise do discurso para investigar como esses mecanismos operam no cotidiano e por que colocá-los em questão pode abrir caminhos mais saudáveis de convivência na sociedade brasileira. O livro “Estereótipos em cena” (Editora Pedro & João), da pesquisadora franco-brasileira, chega agora à sua segunda edição, revista e ampliada. A obra resulta de uma pesquisa desenvolvida na Universidade Paris 8, onde Feré leciona, e de um pós‑doutorado realizado na Universidade Federal Fluminense. Nesse trabalho, a autora articula linguagem e psicanálise para analisar como os estereótipos se formam, se cristalizam e atravessam as relações sociais, especialmente no contexto brasileiro. Para Liz Feré, o próprio sentido da palavra ajuda a compreender o problema. “Stereos vem do grego ‘rígido’, ‘sólido’, e tipo vem então desse traço. A gente poderia dizer que o estereótipo é um traço rígido de alguma coisa”, explica. Com o tempo, o termo passou a designar formas fixas de ver o mundo, os fenômenos e as pessoas. “São representações cristalizadas. A questão do estereótipo é um olhar fixo sobre alguma coisa”, resume. Esses olhares, segundo a pesquisadora, aparecem constantemente na vida cotidiana, sobretudo na linguagem. “Quando a gente diz ‘o Brasil é o país do futebol’, independentemente de ser verdadeiro ou não, a gente fortalece apenas um traço de uma cultura complexa”, exemplifica. Estereótipo como sintoma social No livro, Feré propõe pensar os estereótipos como um sintoma narcísico das relações sociais brasileiras, uma noção inspirada na psicanálise, mas deslocada do campo clínico para o social. “Eu tento resgatar a palavra sintoma da clínica e colocá‑la em um campo mais filosófico, como um mal‑estar disseminado na sociedade em relação à ideia que fazemos de outros grupos”, afirma. Esse funcionamento, explica a autora, contribui para manter coesões rígidas e relações de poder. “Algumas formações discursivas, como os implícitos e os silenciamentos, fazem com que grupos fiquem delimitados em certas posições na sociedade”, observa. Ao reunir análise do discurso e psicanálise, Liz Feré busca ir além da interpretação consciente dos discursos. “As duas disciplinas têm um objeto comum: a linguagem. Não se trata só da construção de sentido, mas da possibilidade de uma leitura inconsciente desses discursos fixos, que criam lugares e produzem silenciamentos”, aponta. Para a pesquisadora, é na linguagem que se afirmam, ou se negam, reconhecimento e respeito. O que os estereótipos dizem sobre nós Em sociedades hierarquizadas, como a brasileira ou a francesa, os estereótipos também funcionam como mecanismos de defesa identitária. “Eles ajudam a proteger uma imagem de grupo e a ocultar conteúdos que não são socialmente aceitos”, diz Feré, destacando como isso se manifesta de forma evidente nas discussões sobre racismo no Brasil. “Parece que ser chamado de racista é mais grave do que cometer o ato de racismo. A pessoa diz ‘não sou racista’, mas o conteúdo não é elaborado e reaparece nos atos falhos, no ‘não foi o que eu quis dizer’”. Para a pesquisadora, esses lapsos – que Lacan descreve como atos bem‑sucedidos – revelam conteúdos ainda não trabalhados simbolicamente. “O contato com o outro pode produzir deslocamentos e permitir a construção de outra relação com a diversidade”, afirma. Falar a partir da branquitude Feré explicita ainda o lugar de onde escreve: o de uma mulher lida como branca no Brasil. Para ela, assumir essa posição é uma escolha ética e política. “A pessoa branca se coloca como universal, e os demais são o outro. Colocar‑me dentro da branquitude é movimentar esse lugar e colocá‑lo em jogo”,...

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Acordo UE‑Mercosul: desafio é transformar oportunidades em negócios, diz Tatiana Prazeres

4/30/2026
Após 25 anos de negociações, começa a valer neste 1° de maio o Acordo Comercial entre Mercosul e União Europeia, o maior já firmado tanto pelo bloco sul‑americano quanto pelo Brasil. O pacto envolve 31 países, com um Produto Interno Bruto (PIB) combinado de US$ 22 trilhões e um mercado potencial de mais de 720 milhões de consumidores. A partir da entrada em vigor do tratado, nesta sexta-feira, mais de 10 mil produtos deixam de pagar tarifas de importação ou ganham vantagens, de ambos os lados. Segundo a secretária de Comércio Exterior do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), Tatiana Prazeres, o acordo começa a produzir efeitos desde o primeiro dia de aplicação provisória. “O efeito imediato do acordo é a eliminação de imposto de importação do lado do Mercosul para um grupo de produtos e a eliminação do imposto de importação na UE para um universo maior de produtos que são originários do Mercosul”, explicou. Para o consumidor final, o acordo não altera as regras de importação de pequenos pacotes. “O regime da importação por pequenos pacotes não se altera com o acordo do Mercosul‑UE”, esclareceu Prazeres. Além da redução tarifária imediata, Prazeres destaca que outros dispositivos entram em funcionamento simultaneamente, criando uma base mais ampla de integração. “Uma série de outros dispositivos passam a vigorar, fortalecendo o relacionamento entre as duas regiões, promovendo investimentos, comércio, cooperação, integração”, afirmou. A Comissão Europeia também comemora este marco. Sistemas preparados para o novo fluxo Para garantir a aplicação efetiva do acordo, Brasil e União Europeia avançaram na adaptação dos sistemas aduaneiros. Segundo a secretária, embora a redução do imposto de importação seja o aspecto mais visível, não é o único. Há também ajustes técnicos para possibilitar o uso de cotas negociadas. Essas medidas buscam assegurar que empresas do Mercosul consigam acessar, de fato, as vantagens previstas. “Outras medidas estão sendo adaptadas, como por exemplo, medidas para implementar cotas, ou seja, como garantir que o importador brasileiro ou de um sócio do Mercosul possa de fato usufruir do benefício da cota”, explicou. Apoio setorial e proteção aos segmentos sensíveis No Brasil, o acordo conta com amplo apoio de setores estratégicos da economia. A secretária ressalta que tanto a indústria quanto o agronegócio se manifestaram favoravelmente ao pacto, incluindo entidades representativas como a Confederação Nacional da Indústria (CNI). Há respaldo também de associações de diferentes ramos, como calçados, móveis e produtos químicos. Para Prazeres, esse apoio é resultado dos cuidados adotados ao longo das negociações. “O governo brasileiro tomou uma série de cuidados para levar em conta as sensibilidades da indústria brasileira, do agro‑brasileiro, de maneira que essa abertura, essa exposição à concorrência europeia vai ser calibrada, vai se dar ao longo do tempo”, afirmou. O acordo prevê instrumentos de proteção para setores mais vulneráveis. “Há mecanismos de salvaguarda para responder algumas dificuldades que os setores eventualmente venham a ter”, destaca Tatiana Prazeres, ressaltando que o objetivo é permitir uma adaptação gradual à concorrência. Ainda assim, a avaliação do governo é amplamente positiva quanto aos efeitos do tratado. Produtividade, consumo e inserção internacional “Estamos convencidos de que é um acordo altamente favorável ao Brasil […] que vai contribuir para obter a inserção externa do país, o aumento da produtividade no Brasil”, declarou a secretária. O acesso a tecnologias e insumos mais baratos é apontado como um dos ganhos centrais. O consumidor também tende a ser beneficiado, com maior oferta de produtos a preços mais competitivos. Ao mesmo tempo, o desenho do tratado levou em consideração setores que precisarão se adaptar a um cenário de concorrência ampliada. “O acordo foi planejado de maneira a que se levassem em conta setores que...

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Escritora indígena lança versão em francês de livro que denuncia processo colonial em verso e prosa

4/29/2026
A escritora, pesquisadora e curadora de literatura indígena brasileira e arte Trudruá Dorrico, pertencente ao povo Macuxi, lançou na França uma versão de seu livro "Tempo de Retomada" traduzido como "Le Temps de la Reconquête". A obra, que mistura prosa, poesia e manifesto político, nasceu de uma indignação da autora ao ler descrições exóticas e preconceituosas sobre seu povo em livros acadêmicos, onde eram retratados como "não confiáveis". Luiza Ramos, da RFI em Paris A inspiração para escrever o livro veio através de pesquisas sobre o povo Macuxi. Trudruá conta que se deparou com representações depreciativas, nas quais os indígenas eram descritos com uma linguagem exótica que ela não se identificava. "Aquilo tudo me indignou bastante. E aí eu comecei a escrever 'Tempo de Retomada', que também nasce a partir de uma fala de uma parenta Guarani Kaiowá [...] quando ela diz assim com muita propriedade: 'como você se atreve', diante de toda a expropriação territorial", explica a autora. "O 'Tempo de Retomada' foi feito a partir de um estudo de livros que eu estava lendo sobre o povo Macuxi. Eu tenho uma característica que eu não sei responder na ponta da língua, eu respondo escrevendo através de poemas, ensaios ou mesmo aforismos, como uma forma de resposta a todo esse material que eu estava lendo sobre a descrição do meu povo", diz. O conceito central da obra é a "retomada", termo que, segundo Trudruá, vai além da recuperação legal de terras expropriadas. Para a autora, a retomada é também um processo de reafirmação identitária diante de um Estado que, historicamente, tentou definir quem era ou não indígena. Ela explica que o que a antropologia denomina "etnogênese", os povos indígenas chamam de retomada: o ressurgimento e a afirmação de sua existência independente de classificações externas. Identidade Indígena e o direito à cidade Para Trudruá, que habita na França há cerca de nove meses e já teve uma experiência de residência artística em Paris em 2023, os indígenas têm o direito a viver a cidade sem perder a identificação inerente à sua origem. "Quando eu digo a minha retomada indígena, ela passa da floresta, da Amazônia pela cidade e qualquer outra capital do mundo que eu queira habitar, isso não vai me tirar a minha identidade", pontua. "Eu cresci sem essas referências, sem ler livros que me ensinassem sobre isso. Então, eu gostaria de ser uma referência para a minha geração e para os jovens terem o que ler sobre ser indígena na cidade e que isso não vai lhe tirar o pertencimento", afirma Trudruá. "Um exemplo muito claro e análogo é que você não deixa de ser brasileiro porque você mora em Paris ou porque você mora na China ou porque você aprende uma língua ou uma cultura do outro, a sua identidade permanece intacta. Por que a identidade indígena seria diferente? Então eu vou continuar sendo Macuxi. A ideia do livro é pensar que a minha subjetividade é primeiro Macuxi, independente dos trânsitos que eu faço, de comunidade para aldeia, de comunidade para a cidade, de cidade para uma metrópole", exemplifica a pesquisadora. Desafios da tradução para o francês A autora, que já tem novos projetos para traduzir seu livro para o inglês, evidencia os desafios de adaptar seu livro para outras línguas. Inclusive, Trudruá revela que já realizou a tradução de algumas de suas obras para o Macuxi com o apoio de sua mãe, fluente no dialeto indígena. No caso do francês, idioma que ela estuda há alguns anos, ela sentiu que alguns termos precisavam de termos análogos ou de explicações em notas de rodapé, que aparecem no final da edição francesa. "Durante a tradução, eu negociei muito com a Paula [Anacaona, tradutora da edição], porque os sentidos que têm na língua portuguesa não tinham na língua francesa, como o conceito de 'pardo'. Então nós negociamos um termo análogo. [...] Na tradução, a gente percebeu que o movimento indígena francês entende que o termo indigène e tribu, como no Brasil 'índio' e 'tribo', são termos que...

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”Carnaval é política”, diz diretor de documentário sobre fundadora da Lavagem da Sapucaí

4/27/2026
O documentário “Oní Sáà Wúre – Lavagem da Sapucaí”, dirigido por Saullo Farias Vasconcellos, acompanha a trajetória de Maria Moura, idealizadora da Lavagem do Sambódromo do Rio de Janeiro, em 2011. O filme foi lançado no Festival do Cinema Brasileiro de Paris, no início de abril, e fará sua estreia no Brasil em outubro. “O meu caminhar, durante todos esses anos foi sempre rua e terreiro”: diz a ekedi Maria Moura, 95 anos, nos primeiros minutos do documentário de Saullo Farias Vasconcellos. Ela, que é uma das maiores personalidades do candomblé do Rio, célebre militante do Movimento Negro, feminista e advogada, tem ares de um personagem fictício de tão cativante. Mas diante das câmeras do cineasta cearense revela um perfil verdadeiro de lutas e conquistas, entre elas, a de ter criado a Lavagem da Sapucaí, evento que chama de “o Carnaval Popular do Rio”. Longe do glamour dos desfiles televisionados e das celebridades, o evento vem sendo realizado há 15 anos, antes do último ensaio técnico das escolas de samba do Grupo Especial do Rio. O sucesso foi tamanho que a tradição se consolidou como um grande momento de celebração pública e coletiva, tornando-se um marco oficial do calendário pré-carnavalesco. Em entrevista à RFI, Saullo conta que conheceu Maria Moura em 2012, no Centro Cultural Cartola, na Mangueira, onde dentro de sua função de “griô” (mestre), ela participava de um programa de contação de histórias para crianças. “Quando eu a encontrei, eu fiquei muito encantado”, afirma o cineasta, ressaltando o vasto conhecimento que a ekedi tem do samba, do carnaval e do candomblé. “Ela é uma referência, uma pessoa empoderadíssima, eu precisava registrar essa mulher que tem muita coisa para contar e que a gente não conhece. Eu achava que o Brasil precisava saber o que ela passou e conhecer a vida dela”, diz. Na época, Maria Moura estava iniciando o projeto da lavagem do sambódromo, e convidou Saullo para conhecer o evento. “Ali eu já vi que ela tinha uma potência de um personagem, porque ela contava as histórias e eu ficava encantado. Aí a gente começou a ter uma relação muito próxima, porque eu a escutava e ela via que eu tinha interesse em aprender. E hoje nós somos amigos, como se fôssemos da mesma família até”, conta. A relação do cineasta com Maria Moura se tornou o fio condutor do documentário, que é narrado pela personagem. No filme, Saullo aparece frequentando a casa da militante e filma até os próprios diálogos com ela. “Foi uma escolha minha ter toda essa narração por ela. O filme é uma contação de história dela comigo e da nossa relação”, diz. Além disso, o documentário também é uma forma que Saullo encontrou para propagar a denúncia do racismo e da intolerância à cultura afrobrasileira. “O Brasil ainda é um país, infelizmente, racista. Muitos terreiros são violados e destruídos. As pessoas não respeitam a diversidade religiosa”, observa. Por isso, para o cineasta, muito mais do que um evento cultural, a lavagem promovida por Maria Moura é um ato político. “Carnaval é festa, é folia, mas carnaval é política. Quando ela leva essa tradição afrobrasileira do candomblé para um espaço institucionalizado como o sambódromo, isso é um gesto de resistência, das mulheres pretas, das mães-de-santo e do samba”, diz. Aumento dos feminicídios no Brasil No lançamento do documentário, no Festival do Cinema Brasileiro de Paris, realizado no início de abril no cinema Arlequin, Maria Moura fez um emocionante discurso denunciando o aumento dos feminicídios no Brasil. “Estamos todas nós, mulheres, correndo risco. É preciso alertar as autoridades”, declarou, lembrando que sua idade não é um impedimento para que ela siga na causa feminista. “Foi muito importante, diz Saullo, lembrando a vinda de Maria Moura a Paris. “Ela, com a força de seus 95 anos, fez essa viagem, atravessou o Atlântico e, ao chegar, ela me disse: ‘meu filho, vim para cá porque eu tenho uma missão’”, relembra. “Depois que acabou a sessão [no festival], várias...

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Brasileiros no exterior têm até 6 de maio para regularizar título e votar nas eleições presidenciais

4/21/2026
Os brasileiros que vivem no exterior e desejam participar das eleições presidenciais de outubro no Brasil precisam ficar atentos: o prazo para emissão de título, transferência do domicílio eleitoral, atualização de dados cadastrais ou regularização de pendências termina no dia 6 de maio. Para esclarecer dúvidas e orientar a comunidade brasileira residente na França, o embaixador Fabio Mendes Marzano, cônsul-geral do Brasil em Paris, e o cônsul adjunto Murilo Vieira Komniski falaram à RFI sobre os procedimentos. O segredo é não deixar para a última hora. Maria Paula Carvalho, da RFI O primeiro turno das eleições está marcado para 4 de outubro, e um eventual segundo turno acontece no dia 26 de outubro. Embora o pleito seja de eleições gerais – com escolha de governadores, deputados e senadores – , no exterior o voto é exclusivamente para presidente e vice-presidente da República. Ainda assim, estar em dia com a Justiça Eleitoral é fundamental. Segundo o embaixador Fabio Marzano, o prazo de 6 de maio (até as 23h59 pelo horário de Brasília) é único e vale para todos os serviços eleitorais, desde a emissão do primeiro título até a transferência para o exterior ou a regularização de pendências. “Vale para todos os tipos de serviços. Essas solicitações têm que ser feitas diretamente na página do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). É um processo bastante simples, e nós colocamos instruções passo a passo também nas nossas mídias sociais”, explicou. Após o envio, o pedido é analisado pela Justiça Eleitoral no Brasil, e o andamento pode ser acompanhado pelo próprio sistema. Uma vez aprovada a solicitação, o eleitor passa a ter acesso ao novo título pelo aplicativo e‑Título. Caso haja pendências no Brasil, como ausência em votações anteriores, o sistema pode apontar erro. Nesses casos, basta quitar a situação. “A multa é pequena. O TSE disponibiliza um boleto, e o pagamento pode ser feito por banco brasileiro ou transferência. Até o dia 6 de maio, dá tempo de regularizar tudo”, reforçou o cônsul-geral. Voto é obrigatório; irregularidade traz consequências Diferentemente da França, o voto no Brasil é obrigatório. Quem não vota nem justifica a ausência fica em situação irregular perante a Justiça Eleitoral. “Isso afeta muitos brasileiros que procuram o consulado para renovar passaporte, porque é obrigatório apresentar a certidão de quitação eleitoral”, alertou o embaixador. A justificativa de ausência não pode ser feita presencialmente em Paris por quem está inscrito no Brasil. Ela deve ser realizada exclusivamente pelos canais digitais do TSE – seja por quem está viajando, seja por quem mora em outra cidade da França e não consegue comparecer ao local de votação. Os dois turnos são considerados eleições independentes: mesmo quem não votou no primeiro pode votar no segundo. A justificativa pode ser feita no dia da eleição ou até 60 dias após cada turno, inclusive pelo aplicativo e‑Título. Imigrantes em situação irregular também podem votar Um ponto pouco conhecido é que a situação migratória na França não interfere no direito de voto nas eleições brasileiras. “Imigrantes em situação irregular na França têm plenos direitos do ponto de vista da legislação brasileira. Se estiverem com a situação eleitoral regularizada, podem votar sem problema algum”, explicou Murilo Komniski. O processo foi significativamente simplificado desde as eleições de 2022, ainda durante a pandemia de Covid-19. Para a regularização eleitoral, basta enviar pelo site do TSE uma selfie com documento oficial brasileiro – como RG, passaporte ou CNH – e um comprovante de residência no exterior, como conta de água, luz ou telefone. Para os homens entre 18 e 45 anos, é necessário também estar em dia com as obrigações militares, exigência que já aparece no próprio formulário do TSE. Cresce o número de eleitores brasileiros na França O número de eleitores brasileiros inscritos para votar na França vem crescendo de forma significativa. Em 2022, eram pouco menos...

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Premiada na França por 'Menos que Um', Patrícia Melo foi destaque no Salão do Livro de Paris

4/20/2026
A escritora brasileira Patrícia Melo foi uma das convidadas do Salão do Livro de Paris. Ela esteve no evento para falar de "Menos que Um", seu mais recente romance traduzido para o francês. A obra denuncia a vulnerabilidade das pessoas em situação de rua em São Paulo. O romance recebeu, na França, o Prêmio Transfuge de Literatura Sul-Americana, em janeiro, logo após seu lançamento no país. "Menos que Um" foi traduzido por Élodie Dupau e publicado pela editora Buchet Chastel com o título "Ceux qui ne sont rien". Segundo a própria Patrícia Melo, o livro é uma rapsódia da vida e dos sonhos que se cruzam, formando um caleidoscópio da miséria brasileira. Este é o 12° romance de Patrícia Melo e o 12° a ser traduzido para o francês. Ao analisar a publicação, as críticas brasileira e francesa evocam "Os Miseráveis", de Victor Hugo, revisitados e retirados da invisibilidade à brasileira. O prêmio conquistado por "Menos que Um" foi a segunda recompensa literária de Patrícia Melo na França. Em 2024, a tradução do livro "Mulheres Empilhadas", que em francês recebeu o título "Celles qu’on tue", venceu o prêmio da revista Madame Figaro. Patrícia Melo, que atualmente mora em Lisboa, veio a Paris participar do Salão do Livro para falar de sua literatura, que ficou muito mais engajada nos útimos anos. "Eu sempre tive certa resistência em dar uma função à literatura, mas chegou um momento em que senti que o autor precisava se politizar, se posicionar. O Brasil viveu isso. Corremos riscos muito sérios de perder uma democracia ainda muito jovem", afirma nessa entrevista à RFI. RFI: Patrícia Melo, com esse prêmio você participou do Salão do Livro de Paris já coroada de sucesso. Patrícia Melo: Pois é, foi uma surpresa para mim esse prêmio, fiquei muito feliz. Isso dá mais visibilidade ao livro, e eu acho muito importante esse reconhecimento que a gente ganhou para colocar a obra mais em evidência. RFI: O que você achou da comparação entre "Menos que Um" e "Os Miseráveis", o grande romance do século XIX, de Victor Hugo? P.M.: Victor Hugo é uma grande paixão. Ele foi uma inspiração no sentido de registrar a miséria e, ao mesmo tempo, mostrar o movimento político, a organização e a revolta. Foi inspirador. É claro que foi muito lisonjeiro para mim que as pessoas percebam essa referência. Mas não é só Victor Hugo. Tem também Jorge Amado. Outro livro que me inspirou muito foi "Capitães da Areia". RFI: Você participou da tradução. O que achou do título em francês? "Menos que Um" virou "Ceux qui ne sont rien". P.M.: Eu gostei muito. Achei que ele tem uma sonoridade mais poética. Faz também uma espécie de eco com o título do romance anterior. Achei muito interessante. Aqui na França, minha editora fez uma observação da qual eu não tinha me dado conta. Talvez tenha a ver com meu afastamento do Brasil, mas ela acha que esses dois últimos livros funcionam como um registro dos anos terríveis que a gente viveu recentemente, quando a direita tomou o poder no país. RFI: Você acerta contas com o governo Bolsonaro? P.M.: Acho que ali fica registrado o quanto foi um período pesado. RFI: Desde o seu primeiro romance, "O Matador", você denuncia a violência brasileira. Você diria que, com o tempo, sua obra ficou mais explícita e engajada? P.M.: Acho que sim, houve uma guinada política. Não foi uma decisão voluntária. Foi uma emoção, uma indignação, um espanto diante do que estava acontecendo, que entrou na minha literatura. Eu sempre tive certa resistência em dar uma função à literatura, mas chegou um momento em que senti que o autor precisava se politizar, se posicionar. O Brasil viveu isso. Corremos riscos muito sérios de perder uma democracia ainda muito jovem. RFI: O fato de morar fora do Brasil facilita essa análise? Esse distanciamento ajuda? P.M.: Acho que sim. Em termos de forma, comecei a querer compor grandes painéis, fazer grandes panorâmicas do Brasil. Isso não era um desejo consciente desde o início. A gente percebe quase no final da...

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De Cuiabá aos festivais internacionais: o cineasta Bruno Bini revela o Brasil além do eixo Rio–São Paulo

4/16/2026
Fora do eixo tradicional Rio–São Paulo, o cinema brasileiro contemporâneo vem encontrando novas vozes, territórios e narrativas. Um dos nomes que simbolizam esse movimento é o cineasta Bruno Bini, diretor, roteirista e produtor nascido em Cuiabá, com mais de 20 anos de trajetória no audiovisual. Seu mais recente longa-metragem, "Cinco Tipos de Medo", vem consolidando essa projeção ao conquistar o Festival de Cinema de Gramado, onde recebeu os principais prêmios da edição de 2025, e ao circular por importantes festivais internacionais, incluindo o 28º Festival do Cinema Brasileiro de Paris. Maria Paula Carvalho, da RFI Lançado comercialmente no Brasil após a consagração em Gramado, o filme marca um momento decisivo na carreira de Bini e também no reconhecimento do cinema produzido no Centro-Oeste. "Cinco Tipos de Medo" foi o primeiro longa-metragem de ficção de Mato Grosso selecionado para a competição oficial do festival gaúcho, feito que, para o diretor, já representava uma vitória antes mesmo da premiação. “A gente já estava muito feliz de estar lá e de fazer parte desse festival, que é uma das maiores vitrines do cinema brasileiro”, afirma Bini. A sessão, segundo ele, foi marcada por uma reação rara do público: aplausos de pé por vários minutos. “Depois, com a premiação, a gente se sentiu muito honrado por finalmente estar consolidando a qualidade do cinema feito em Mato Grosso”, comemora. Bruno Bini construiu sua carreira fora dos grandes polos de produção audiovisual. Longe de representar um obstáculo, essa origem se converteu em matéria-prima criativa. Desde seus primeiros filmes, o diretor percebeu o interesse do público por narrativas ambientadas em contextos pouco explorados pelo cinema brasileiro. “Havia um interesse grande em histórias que se passavam em contextos pouco conhecidos do grande público”, explica. Para ele, contar histórias enraizadas no universo cuiabano e mato-grossense sempre foi um gesto natural. “Eu sou tão inserido nesse contexto que era o único jeito de contar essas histórias”, afirma. O diretor se diz surpreso de ver que a trama passada na periferia de Cuiabá, no bairro Jardim Novo Colorado, tem dialogado com espectadores de culturas e países distintos. Um quebra-cabeça narrativo A estrutura do filme é um dos aspectos que mais chamam atenção da crítica e do público. A narrativa se constrói a partir de cinco personagens, cujas histórias se entrelaçam de maneira fragmentada, exigindo atenção ativa do espectador. Para Bini, esse formato não é apenas uma escolha formal, mas parte essencial da proposta do filme. “Eu considero uma forma inteligente de engajar o público”, diz. “O filme carrega essa característica de quebra-cabeça, em que pouco a pouco as informações vão sendo apresentadas.” Segundo o diretor, esse tipo de construção faz com que o espectador deixe de ser passivo. “Ele se sente parte da construção do filme.” A fragmentação também dialoga com o perfil dos personagens, marcados dramas, contradições e intenções nem sempre explícitas. O longa acompanha cinco pessoas que têm suas vidas entrelaçadas: Murilo, jovem músico em luto; Marlene, enfermeira presa a um relacionamento abusivo; Luciana, policial movida pela vingança; e Ivan, advogado de intenções ambíguas. “São personagens que escondem uma coisa ou outra. Achei que essa não explicitação combinava com a estrutura narrativa”, explica. O filme levou quatro Kikitos: Melhor Filme, Melhor Roteiro e Melhor Montagem, todos para Bini, além de Melhor Ator Coadjuvante para o rapper e ator Xamã, que atua ao lado de Bella Campos. Com personagens tomados por culpa, ambivalência e escolhas difíceis, "Cinco Tipos de Medo" não evita a violência nem a tensão. Ainda assim, o diretor rejeita a ideia de um cinema puramente sombrio ou desesperançoso. Para ele, a dureza é inseparável da realidade brasileira, mas não elimina a possibilidade de afeto e redenção. “O Brasil é um país de desigualdades, onde a população enfrenta enormes dificuldades,...

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'Precisamos Falar' coloca famílias diante de um dilema moral: proteger os filhos ou assumir a verdade

4/15/2026
Exibido no Festival de Cinema Brasileiro de Paris, o longa apresentado por Emílio de Mello e Leonardo Monteiro de Barros lança um olhar incômodo sobre privilégio, impunidade e responsabilidade moral em uma sociedade polarizada. Proteger os próprios filhos ou dizer a verdade à Justiça, custe o que custar. É a partir desse dilema ético fundamental que se constrói “Precisamos Falar”, longa-metragem brasileiro que tem percorrido festivais internacionais antes de sua estreia no Brasil, prevista apenas para o segundo semestre de 2026. Dirigido por Pedro Waddington e Rebeca Diniz, o filme acompanha dois casais da elite urbana cujas certezas morais entram em colapso quando descobrem que seus filhos adolescentes participaram juntos da agressão a uma mulher em situação de rua – um ataque que resulta em morte. Os jovens envolvidos no crime são filhos de dois irmãos. Um deles é um político em ascensão; o outro, um professor universitário em crise pessoal e profissional. A revelação da agressão fatal transforma um encontro familiar em um embate ético profundo, no qual entram em confronto não apenas visões distintas de mundo, mas também a relação entre poder, responsabilidade, impunidade e consciência moral. Quando o poder e a família entram em conflito “O que eu acho que é interessante no filme é que a questão não é o crime, é como a sociedade lida com o crime. Essas famílias, na verdade, são um espelho de uma sociedade”, disse à RFI o ator Emílio de Mello, um dos protagonistas do longa, que esteve em Paris ao lado do produtor Leonardo Monteiro de Barros, sócio da Conspiração Filmes. “Não importa se o agressor é seu filho, você tem que agir conforme manda a lei, de acordo com a moral, com a ética. Eu acho que o filme discute isso de uma maneira muito boa, muito bonita”, destaca Emílio de Mello. Ele interpreta Celso, um político em plena campanha ao governo do Rio de Janeiro, cuja ascensão nas pesquisas coincide com a revelação do violento ataque cometido por seu filho e pelo primo. “O filme é uma gangorra nesse sentido. Ele começa com ele passando à frente nas pesquisas para ganhar o governo do Rio. E o crime acontece nessa noite”, conta o ator. A partir daí, estabelece‑se um embate entre dois núcleos familiares em posições opostas: de um lado, Celso e sua mulher, no auge social e político; de outro, o irmão de Celso, professor afastado da universidade, mergulhado em uma crise existencial e lidando com a depressão. Pai de dois filhos, o ator e diretor de teatro paulista admite que o conflito extrapola a ficção. “Só de me imaginar numa situação como essa, já me dá um certo arrepio”, confessa. Para ele, o filme toca em algo essencial. “O futuro do nosso mundo são os nossos filhos. A maneira como a gente lida com a nossa família interfere diretamente na construção de uma nova sociedade.” Polarização inviabiliza reflexão Esse debate, segundo o ator, ganha ainda mais urgência em um mundo atravessado pela polarização. “A gente vive uma polarização pelo mundo inteiro. E a gente não pode falar disso. Então o cinema abre espaço para essa discussão”, afirma, citando experiências recentes vividas também fora do Brasil. A escolha da vítima, uma mulher em situação de rua, estrangeira, acrescenta camadas decisivas ao conflito. “É muito importante ser uma mulher. Na cadeia da importância social, ela realmente é relegada à última categoria. E acontece com esta pessoa”, diz Emílio. “Ela ainda é uma estrangeira. Quer dizer, isso tudo está nas entrelinhas do filme.” Leonardo Barros complementa que essa alteração em relação ao livro original foi uma decisão consciente do roteiro. “A ideia de ser uma moradora de rua e uma refugiada foi uma ideia do roteirista Sérgio Goldenberg, porque no livro original isso era um pouquinho diferente”, explica. Para o produtor, essa escolha reforça a dimensão ética da narrativa e a discussão sobre impunidade. Um dilema universal, com ecos locais Leonardo lembra ainda que “Precisamos Falar” é uma adaptação do...

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